domingo, 4 de janeiro de 2009

Significado

Poder-se-ia comparar o homem a alguém que viva no Grand Canyon, mas que seja tão míope que não enxerga nada além de cinco metros de distância. Ou uma pessoa que viva numa catedral, envolvido porém por uma espécie de cortina – como que no interior do cubículo de um adivinho – que o acompanha para onde quer que caminhe.
A cortina é o “dia-a-dia”. É um estado mental, não uma realidade objetiva. Deve-se considerar a mente como algo parecido com o radar dos morcegos: de alguma forma conseguimos nos estender para fora e “sentir” a realidade à nossa volta. Na simplicidade do cotidiano, porém, o
homem não precisa “estender-se” para muito longe. E acaba adquirindo o hábito de não fazê-lo.

(…)

O homem precisa desenvolver a consciência positiva. Ele atingiu sua posição atual na escala da evolução graças ao seu poder de voltar a mente para o microscópio e concentrar-se em coisas pequenas. Mas isso o tornou vítima do pequeno e do negativo. A história humana é a história da infantilidade, de brigas bobas por pequenos motivos. Como a dona de casa em Under Milk Wood, que diz “Antes de deixar o sol entrar, cuide que ele limpe os pés”, escravizamo-nos à nossa espantosa capacidade de dedicação às minúcias. Essa mulher obviamente não desfruta do fato de viver. Está presa a seu próprio negativismo. Como todos nós.

(…)

Os mistérios de iniciação constituíam algo diferente. Seu objetivo era elevar a mente acima da banalidade cotidiana, colocando-a numa firme contemplação do caráter milagroso da natureza. O método(da iniciação da religião de Numa) consistia em fazer com que o aspirante se identificasse com a história de Deméter e Coré ou Orfeu, do mesmo modo que um bom pregador pode conseguir que seus fiéis se identifiquem com a paixão de Jesus numa Sexta-feira Santa. A história de Deméter é dramática o bastante para esse fim: sua filha foi raptada e violentada pelo deus do mundo dos mortos, quando colhia rosas, açafrão, jacintos e violetas nos campos. Durante a longa busca que empreendeu, Deméter fez-se passar por mortal e tornou-se ama no palácio de Ática, em Elêusis.(Ela tencionava fazer do recém-nascido filho do rei um ser imortal, mas foi surpreendida pela rainha no momento em que estava prestes a colocar o menino no fogo, sendo forçada a revelar sua verdadeira identidade.) Sua dor torna estéril a terra, até que Plutão permite que Coré volte à terra uma vez por ano. A lenda explica as estações do ano, e os iniciados tomavam-na ao pé-da-letra. Os mistérios começavam com um jejum ritualístico, seguido de uma vigília que atravessava a noite toda, durante a qual os candidatos à iniciação permaneciam sentados e cobertos por véus, em bancos forrados com pele de carneiro. Na vigília, meditavam sobre o rapto de Coré e a tristeza de Deméter, a longa busca empreendida pela mãe, e assim por diante. Nessa parte oral oral da iniciação, conseguia-se tudo isso por uma representação sagrada e por “sermões”. Em seguida vinham as “provas”, que por certo eram terrificantes e até mesmo verdadeiramente perigosas. Por fim, o clímax da representação: a tristeza de Deméter no templo de Elêusis, os campos áridos sem vegetação, a devolução da filha, com o que ela faz crescer de uma só vez um milharal pronto para a colheita. Nesse ponto da celebração, apresenta-se aos adoradores uma espiga de milho maduro. E, como nos rituais dos xamãs, é provável que o efeito dramático fosse esmagador. Os adoradores olham para fora, para os campos de milho que balançavam com o vento, para os pomares de frutos maduros, e é como revelação. A partir desse ponto, o nome de Deméter ou Coré provoca arrepios no couro cabeludo.

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Sempre que a poesia, a música ou uma paisagem me toca profundamente, percebo que vivo num universo de significados que merece de minha parte algo melhor do que a lassidão mesquinha em que vivo habitualmente. E de súbito compreendo a verdadeira fatalidade que representa esse contentamento sem entusiasmo que parece tão inofensivo quanto a trepadeira numa árvore. Ele sistematicamente me rouba a vida, apropriando-se de minha vitalidade e de meu sentido de finalidade. Preciso concentrar-me com clareza nesse imenso significado à minha volta, e me recusar a esquecê-lo; devo rejeitar com desprezo todos os significados menores que procuram atrair para eles minha capacidade de concentração.

Retirado do livro O Oculto, de Colin Wilson.

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sexta-feira, 19 de dezembro de 2008

A espiritualidade de Confúcio

Depois de muito tempo sem postagens próprias, aqui está um texto de minha autoria. Espero que gostem! Se puder, deixe sua opinião!

A espiritualidade de Confúcio

Aqui no ocidente é comum associar o nome de Confúcio a um pensador político, pois de fato seu pensamento influenciou muitos líderes da China (e influencia até hoje). Procurando um pouco pela internet, vemos Confúcio representado como “Pregador moralista, tratadista e legislador”. Talvez por isso as traduções que temos de seus Analectos parecem buscar esse sentido político – mas os ensinamentos dos analectos também possuem uma profundidade espiritual. Vejamos como exemplo esse analecto:

O Mestre disse: “Enquanto o cavalheiro acalenta o bom governo, o homem vulgar acalenta sua terra natal. Enquanto o cavalheiro acalenta respeito pela lei, o homem vulgar acalenta o tratamento generoso”

Numa primeira interpretação, podemos pensar que se trata de um elogio ao homem que respeita as leis e se preocupa com o governo. Mas aonde está escrito “o bom governo” poderíamos substituir por “virtude”, partindo do texto original em chinês(não possuo o original em mãos agora, mas se houver interesse posso transcrevê-lo aqui depois). Temos um novo sentido para a frase: Enquanto o cavalheiro acalenta a virtude, o homem vulgar acalenta sua terra natal. O que essa nova frase quer dizer é que o “cavalheiro” (君子- Jun zi, um homem que segue a consciência divina) mantêm no seu íntimo e cultiva a Virtude, ou o mandado divino, e não se apega a bens materiais; Seu objetivo é revelar a verdade divina ao mundo(dado esse conceito, acho a palavra “cavalheiro” pouco apropriada, embora seja a tradução “correta”. Vou utilizar o termo cultivador, no sentido de cultivador da Virtude). Já o homem vulgar (小人- Xiao rén, homem pequeno) mantém-se apegado à sua posse de terra, visando o lucro. Pode-se dizer ainda que a “terra natal” do Xiao rén seja o próprio planeta Terra, porque permanece preso no ciclo de reencarnações. A segunda frase também pode induzir ao erro. Pode-se até achar que o homem vulgar é superior ao cavalheiro (homem pequeno superior ao cultivador), pois o valoriza o tratamento generoso com o próximo acima de leis e regras. Mas não é isso que Confúcio queria dizer. O “tratamento generoso” referido aqui é a adulação àqueles que possuem fama e/ou riqueza, visando interesses. O “respeito pela lei” do cultivador é o respeito pela Lei Divina, o respeito pela Verdade e a honestidade, jamais fazendo ou aceitando tal comportamento. Os analectos contém muitos trechos de doutrina moral, podendo ser comparado a Moisés e seus 10 mandamentos. O fato é que dos 3000 alunos que Confúcio teve, poucos eram capazes de apreender o Tao; muitos analectos são ditames e regras para uma conduta correta, para guiar o povo – mas o verdadeiro homem benevolente conhece a verdade dentro de si, e se guia através dela. Sua bondade não é algo exterior; ele não pratica a bondade para ser bom, mas ele já é bom, então tudo que faz é bondade. É desse tipo de homem que falam Jesus, Buda e tantos outros homens sábios de nossa história – e Confúcio também. Ainda assim, os analectos possuem um significado espiritual profundo na base de seus ensinamentos, que é a busca do homem pelo conhecimento de si mesmo.

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sexta-feira, 21 de novembro de 2008

Fim da inimizade

"Abusaram de mim e me machucaram,
Me derrotaram e roubaram".
Naqueles que abrigam tais pensamentos,
A inimizade nunca termina.

"Abusaram de mim e me machucaram,
Me derrotaram e roubaram".
Naqueles que não abrigam tais pensamentos,
A inimizade será apaziguada.

Porque a inimizade não pode jamais
Ter um fim através da inimizade.
A não-inimizade paralisa a inimizade --
Esta é uma verdade além do tempo.
Buda Shakyamuni
Dhammapada 1 | 3-5

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Retirado do Samsara blog.

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sexta-feira, 14 de novembro de 2008

Autodescoberta

"O esplendor de uma pessoa que descobriu tudo o que se passa dentro dela é extraordinário porque, ao se tornar consciente, tudo que é falso desaparece e tudo que é real desabrocha.

Exceto isso , não existe nenhuma transformação radical possível.

Nenhuma religião pode lhe dar isso, nenhum messias pode lhe dar isso.

É um presente que você tem que se dar."

-Osho

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sábado, 8 de novembro de 2008

Auto-aceitação

Você não pode melhorar a si mesmo. Não estou dizendo que não é possível melhorar, apenas que você não pode melhorar a si mesmo. Quando você pára de se melhorar, a vida melhora você. Nesse relaxamento, nessa aceitação, a vida começa a fluir por você.

Ninguém jamais foi como você, e ninguém jamais será como você. Você é simplesmente único, incomparável. Aceite isso, ame isso, celebre isso – e dentro desta própria celebração você começará a ver a singularidade dos outros, a incomparável beleza dos outros. O amor só é possível quando há uma aceitação profunda de si mesmo, do outro, do mundo. A aceitação cria um meio em que o amor cresce, é o solo em que o amor floresce.

O AMOR-PERFEITO NO JARDIM DO REI


Ouvi a seguinte história:
Um rei passeou por seu jardim e encontrou suas árvores, arbustos e flores murchos, quase morrendo. O carvalho disse que estava morrendo porque não podia ser tão alto quanto o pinho. Virando-se para o pinho, percebeu que estava murcho porque não podia dar umas como uma videira. A videira, por sua vez, estava morrendo porque não podia florescer como a roseira. Mas encontrou o amor-perfeito florescente e muito viscoso. Ao perguntar, recebeu a seguinte resposta:
“Acreditei que ao me plantar, você quisesse um amor-perfeito. Se houvesse desejado um carvalho, uma videira ou uma roseira, teria plantado um deles. Então pensei: já que você havia me colocado aqui, deveria fazer o melhor para ser aquilo que você deseja. Não posso ser nada além daquilo que sou, e estou tentando sê-lo da melhor forma que me é possível.”
Você está a que porque a existência precisa de você tal como é. Caso contrário, outra pessoa estaria aqui! A existência não teria ajudado você a estar aqui, não o teria criado. Você está cumprindo algo muito essencial, muito fundamental, ao ser como é.
Se Deus quisesse um Buda, ele teria produzido tantos Budas quantos desejasse. Produziu um único Buda – isso bastou, ele ficou satisfeito consigo mesmo, profundamente satisfeito. Desde então ele não produziu outro Buda ou outro Cristo. Em vez disso, criou você. Pare e pense no respeito que o Universo lhe atribuiu! Você foi escolhido, não Buda, não Cristo, não Krishna.
Você será mais necessário, essa é a razão.Você encaixa melhor agora. O trabalho deles já foi feito, contribuíram com suas fragrâncias para a existência. Agora você deve contribuir com sua própria fragrância.
Contudo, os moralistas, os puritanos, os padres, todos continuam querendo lhe ensinar lições, querem deixar você maluco. Dizem à rosa: “Torne-se um lótus.” E dizem ao lótus: “O que você está fazendo aqui? Você deve se tornar alguma outra coisa.” Deixam todo o jardim louco e tudo começa a morrer, porque ninguém pode ser outra pessoa, isso não é possível.
Foi isso que aconteceu à humanidade. Todos estão fingindo. A autenticidade se perdeu, todos tentam ser outra pessoa.
Olhe para si mesmo: você está fingindo ser outra pessoa. Mas só pode ser você mesmo, não há outra forma, nunca houve, não é possível ser outra pessoa. Você permanecerá sendo você mesmo. Pode divertir-se com isso e florescer, ou pode secar aos poucos caso condene aquilo que você é.

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